Alma da Vela: Uma visita à exposição e uma pseudo-crítica com cheirinhos de John Ruskin e Tom Wolfe

Posted by Roberto Macedo Alves on Oct 11, 2008 in Rants |

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Ontem visitei a exposição “ALMA DA VELA – PROJECTO PLÁSTICO DO ESPÍRITO OLÍMPICO“, da Patrícia de Herédia.

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A inauguração decorreu como costumam decorrer estas coisas: a presença das Personalidades Oficiais, os jornalistas fotográficos e sociais, a presença da TV, da rádio e dos petiscos, num espaço magnífico que deixava as obras respirar e permitia apreciar com a atenção merecida as obras desta excelente exposição. Estavam presentes excelentes figuras ilustres que eu admiro pelo seu trabalho em benefício da comunidade e da cultura e estavam também aquelas figuras estranhas, que parecem não estar a apreciar as obras, mas estão apenas para serem vistas numa exposição. Naturalmente havia também representantes do grupo dos pseudo-artistas cheios de si mesmos, incapazes de deixar de olhar para o seu próprio umbigo mesmo quando confrontados com obras que conseguem fazer-nos perceber por que razão Deus nos deu os olhos. Mas esses são um caso perdido e provavelmente nunca conseguirão sair da sua mediocridade. Não é assunto que me interesse destacar agora. Quero é falar da ALMA DA VELA.

Eu confesso (mea culpa, mea culpa!) que não conhecia o trabalho desta artista (apesar do seu vasto currículo) até ter ouvido algures na internet acerca do seu projecto de representar sobre tela toda aquela mística associada aos Veleiros e os velejadores, uma temática louvável (e refrescante!) de um desporto que nalguns lados talvez não seja tão falado como deveria.O que é uma pena.

Mas basta de ser moralista. Quando as pessoas pintam sobre o que gostam, o resultado é sempre impressionante. E podemos ver isso pelas palavras da artista (no seu blogue): “Desde muito cedo me senti desafiada por varíadissimos interesses num universo com tantas possibilidades. Foram sempre muitas as coisas que atraíram a minha atenção e a vontade de aprender… uma vida parece não chegar para tanta diversidade e opção.
Foi preciso, então, delinear um trilho de realizações e o mar sempre esteve no início da lista… talvez por ter nascido perto da praia por fazer parte de uma longa linhagem tão intimamente ligada ao mar.

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A inauguração foi ontem e estará disponível até finais de Novembro, para quem quiser visitar, na magnífica Sala Principal de Exposições da Universidade da Madeira, no Colégio dos Jesuítas – Praça do Município. E na minha opinião, é uma exposição que merece ser vista.
Por vezes, nestas coisas da arte contemporânea encontramos peças que nos fazem pensar, que nos enriquecem, outras que exploram um ponto de vista totalmente fresco e diferente. Outras revisitam e reinterpretam os clássicos, ou as suas próprias obras anteriores, como se na eterna regurgitação daquilo que já passou, sem acrescentar significado adicional criássemos a ilusão de movimento e avanço. O que nem sempre é verdade. Outras vezes, os trabalhos são CHATOS. E isso é um pecado cardinal na arte. Mas não é o caso e eu estou a divagar. Regressemos à exposição.
Normalmente, fico sempre com receio quando sei que as imagens apresentadas nas exposições representam o mar.
O mar para mim é algo muito especial, traz-me uma sensação única, revitalizante, inspiradora. Um daqueles momentos que eu referia num post anterior, com a resposta à pergunta When you die and get buried and get to be floating wherever you go, what is going to be your best memory from Earth?” é precisamente quando vou para a praia, nos fins das tardes de verão, ver o por-do-sol depois de dar um mergulho.

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E por isso, é que me irrita tanto ver más pinturas do mar. É por isso que tenho medo de pinturas do mar, tenho medo que a imagem da tela não possua a energia, a intensidade, que não consiga despertar em mim os poderosos sentimentos que o mar devia despoletar.
A maior parte das vezes, quando vejo o mar pintado, costumo ficar irritado, mal-disposto, até com náuseas (e não é devido a sensações de movimento). Mas capturar a essência do mar, poder transmitir a energia desta força da natureza é das coisas mais difíceis que já vi. E que pouca gente consegue capturar.
Só há duas pessoas cujo trabalho na paisagem marítima estará sempre acima de todos os outros: os dois Williams – William Barrett e William Turner. E até agora, permaneciam os dois lá no seu patamar no que se refere às reacções que me despertavam. Mas afinal, ainda há esperança. Ainda há mais pessoas que vibram, que conseguem apanhar a essência do mar com a vida que merece. Como é o caso da Patrícia de Herédia.
Estes artistas trabalharam a paisagem marítima com uma energia e paixão que raramente vemos neste tema. Eles ADORAVAM o mar. E nota-se nos trabalhos. Converteram a pintura do mar em algo verdadeiramente emocionante. Ainda hoje fico arrepiado quando me lembro da primeira vez que vi alguns dos trabalhos do Turner ao vivo, na Gulbenkian. Ainda hoje, tenho à minha frente no escritório uma reprodução de um dos quadros do Turner, com toda a a sua vitalidade inspiradora.
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Mas agora o caro leitor deverá estar a perguntar “mas afinal, ele GOSTOU da exposição OU NÃO?“. E a resposta é simples (e é algo que tive o privilégio de poder dizer à artista pessoalmente): nunca tinha ficado tão arrepiado (no bom sentido) com um quadro marítimo desde que vi os Turners na Gulbenkian. Expliquei isso à artista, Patrícia de Herédia, que me fascinou pela sua humildade e simpatia, pela acessibilidade e delicada e agradável conversa – é sempre bom quando conhecemos pessoas cuja beleza é proporcional ao talento.
Foi realmente um privilégio poder dizer-lhe o quanto gostei dos trabalhos. Uns mais do que outros naturalmente. Enquanto alguns apresentavam a Essência, a Alma do mar e da vela, outros prestavam homenagem aos atletas, aos símbolos vivos que dão valor e significado e vida a este desporto, àquelas figuras que acompanhamos e cujos triunfos seguimos emocionados (como o caso do nosso João Rodrigues, outro exemplo de simpatia e humildade – que devia servir de exemplo a muita gente). Pessoalmente, preferi os da essência. Passei longos minutos a analisar cada pormenor, a ver como o azul interagia com o verde e com o branco, como as pinceladas geravam ondas e espuma e profundidade cheias de vida, como a ideia do molhado, da frescura, da vitalidade do mar chegava até mim. Simplesmente magnífico e imperdível.
E não estou a dar graxa. É mesmo verdade. Alguns dos quadros desta exposição arrepiaram-me como raramente acontece, Foram provas daquilo que uma pessoa talentosa pode fazer quando está a trabalhar na temática (ou numa das temáticas) que gosta. Estas obras deixaram-me feliz e fascinado enquanto estava na sua presença. Que mais posso pedir daquilo que supostamente seriam apenas umas simples pinceladas sobre tela?

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